VORIK LABS

Início › Conteúdo › Cyber

VORIK CYBER

Ataque à Binance: o maior roubo de criptomoedas da história

Por Walter Calza Neto30 de outubro de 20266 min de leitura

Hackers ligados à Coreia do Norte desviaram cerca de US$ 6,3 bilhões da Binance, a maior corretora de criptomoedas do mundo, no que já é tratado como o maior roubo de ativos digitais da história.

O ataque começou no fim da quinta-feira (29) e atingiu carteiras da plataforma em dez blockchains diferentes. Segundo a TRM Labs, empresa americana de análise de blockchain, a maior parte dos recursos saiu em cerca de 20 minutos. A própria TRM estima o montante em US$ 6,36 bilhões, mais de quatro vezes o recorde anterior, da Bybit, em 2025.

A Binance suspendeu depósitos e saques, informou ter congelado cerca de US$ 3 bilhões com ajuda de parceiros e prometeu cobrir integralmente as perdas dos clientes. "Seu dinheiro está seguro e estamos cobrindo todas as perdas", escreveu o co-CEO Richard Teng no X. A empresa espera retomar os saques em até 48 horas.

Um laptop como porta de entrada

A investigação preliminar da Binance aponta para o computador de um engenheiro de DevOps, profissional que cuida da infraestrutura de sistemas. Com o laptop comprometido, o invasor teria alcançado um contêiner de serviço e, a partir dele, disparado ordens de saque não autorizadas.

A corretora afirma não ter encontrado indício de vazamento das chaves privadas de suas carteiras. Ou seja, o cofre não foi arrombado: alguém conseguiu, por dentro, convencer o sistema a abri-lo. A Binance revogou as autorizações afetadas e prometeu um relatório técnico quando a apuração terminar.

Na rede Ethereum, segundo a TRM, o atacante explorou o EIP-7702, recurso que permite a uma carteira delegar operações a um contrato inteligente. Um lote de 50 autorizações assinadas previamente deu a um contrato malicioso o controle de uma carteira quente da corretora, drenando de forma contínua os valores que chegavam a ela. Nas demais redes, os ativos saíram por transações assinadas comuns.

A coordenação entre blockchains distintas, avalia a TRM, sugere um comprometimento mais amplo da infraestrutura de assinatura da Binance. A empresa ainda não confirmou o caminho completo do ataque.

A assinatura de Pyongyang

TRM Labs e Chainalysis atribuem a operação ao TraderTraitor, subunidade do Lazarus Group dedicada a criptoativos e considerada a elite hacker do regime norte-coreano. Jonathan Levin, cofundador e CEO da Chainalysis, afirmou no X que o ataque provavelmente foi obra do grupo.

Os analistas apontam semelhanças com o roubo de US$ 1,5 bilhão da Bybit, em fevereiro de 2025, que o FBI atribuiu ao mesmo grupo. Entre os pontos em comum estão a preparação feita muito antes do saque e assinaturas de transações obtidas com antecedência. Em ambos os casos, o alvo não foi uma falha de código, mas o fluxo interno de autorização de transferências.

Há cautela na atribuição. Por ora, são duas empresas privadas que apontam a Coreia do Norte; nem a Binance nem governos confirmaram formalmente a autoria. Questionada, a corretora disse apenas que trabalha com autoridades para identificar os criminosos. Pyongyang costuma negar esse tipo de acusação e não respondeu aos pedidos de comentário da Reuters.

O episódio ocorre cerca de um mês depois de outro ataque com suspeita norte-coreana: em setembro, a corretora Bitget perdeu US$ 387,5 milhões e também suspendeu saques.

Congelar não é recuperar

Cerca de metade dos ativos foi bloqueada rapidamente por emissores de stablecoins. Tether, Circle, Ripple e a World Liberty Financial, ligada à família Trump, congelaram saldos, e o Conselho de Segurança da rede Arbitrum interveio em sua blockchain. A TRM contabilizava US$ 2,7 bilhões congelados na madrugada de sexta-feira; a Binance informou depois cerca de US$ 3 bilhões.

O bloqueio, porém, não devolve o dinheiro. Ari Redbord, chefe de políticas da TRM, lembra que a restituição exige um processo jurídico próprio, com possíveis ordens judiciais e coordenação com os emissores dos tokens.

O atacante também se antecipou: trocou parte das stablecoins por bitcoin e ether, ativos que nenhum emissor central pode congelar. Esses valores ainda podem ser rastreados e retidos se chegarem a corretoras que cooperem com investigadores. O histórico, contudo, não anima: no caso Bybit, o FBI relatou que os recursos foram rapidamente pulverizados em milhares de endereços de várias redes.

O episódio expõe um paradoxo do setor. O poder de congelamento das stablecoins, criticado por contrariar a ideia de descentralização, foi justamente o que salvou metade do valor.

Mercado sente o golpe

A notícia derrubou as cotações. O bitcoin caiu mais de 3%, para US$ 76.368, e o ether recuou mais de 3%, para US$ 2.178. O BNB, token da própria Binance, perdeu cerca de 5%. Ações da Coinbase e da Strategy também caíram no after-market em Nova York, sinal de que o temor vai além de uma única empresa.

Para cobrir o rombo, a Binance diz que usará o SAFU, fundo de proteção de usuários criado em 2018, além de recursos próprios. Promete ainda publicar nova prova de reservas após a correção das falhas. Changpeng Zhao, fundador da corretora e perdoado por Donald Trump em 2025, escreveu que os fundos dos usuários estão seguros.

Sean Farrell, da Fundstrat, disse à CNBC que, por ora, não vê ameaça relevante à solvência da Binance, avaliação que depende da recuperação dos valores congelados. O teste decisivo será a reabertura dos saques: uma volta tranquila reforça a confiança; um atraso prolongado tende a ampliar a desconfiança. A Binance.US e a Coinbase informaram não ter sido afetadas.

O que o caso ensina ao Brasil

O ataque chega no primeiro ano do marco regulatório brasileiro para criptoativos. As Resoluções BCB 519, 520 e 521, publicadas em novembro de 2025 e em vigor desde 2 de fevereiro de 2026, regulamentam a Lei 14.478/2022 e levam as prestadoras de serviços de ativos virtuais para dentro do Sistema Financeiro Nacional.

As normas exigem segregação entre o patrimônio da empresa e os ativos dos clientes, gestão de riscos, prevenção a fraudes e padrões robustos de segurança cibernética. Na apresentação das regras, o diretor de Regulação do BC, Gilneu Vivan, destacou que essas empresas responderão por perdas causadas por negligência.

O caso Binance mostra por que esses requisitos importam. A falha não esteve na criptografia, mas em um ponto humano e operacional: o computador de um funcionário com acesso privilegiado. É exatamente o tipo de risco que controles internos, segregação de funções e gestão de acessos devem conter.

Para o investidor brasileiro, a promessa de ressarcimento é uma decisão comercial da corretora, não uma garantia como a do FGC, que não alcança criptoativos. Na esfera do consumidor, a Justiça paulista já condenou a Binance a indenizar em R$ 578 mil um cliente que teve a conta invadida, em linha com a responsabilidade objetiva do Código de Defesa do Consumidor por falhas na segurança do serviço.

A lição vale para o mercado inteiro: em um setor que se apresenta como imune a intermediários, a segurança continua dependendo de pessoas, processos e da capacidade de responder em minutos.

Fontes

Walter Calza Neto

Walter Calza Neto

Fundador da VORIK LABS. Encarregado de dados (DPO) e Compliance Officer em organizações dos setores esportivo, financeiro, de saúde suplementar e público, perito judicial no TJSP e colunista de cibersegurança e proteção de dados da TI Inside.

Mais textos do autor

Quer saber quanto falta para a sua organização cumprir essas regras?

Solicitar diagnósticoAutoavaliações gratuitas